Ponto de Onibus situado na Avenida Castelo Branco em Goiânia-GO

Goiás tem 1.601 ruas com nomes ligados à ditadura militar

Mapeamento cruzou o Censo 2022 com a lista da Comissão da Verdade; concentração é maior em cidades que se expandiram durante o regime militar 

Por Anna Letícia Epaminondas, Guilherme Américo, Gabriela Ogshawara, Jhulia Mendes e Raphael Teixeira.

Com orientação de Mariza Fernandes.

 

 

Avenida Castelo Branco

Avenida Castelo Branco, Goiânia-GO. Foto: Raphael Teixeira

 

Um levantamento realizado a partir da Base de Faces de Logradouros do Censo 2022, cruzada com a lista de 377 militares citados no relatório final da Comissão Nacional da Verdade, identificou 1.601 ruas em Goiás que homenageiam militares envolvidos na repressão entre 1964 e 1985. Essas homenagens estão distribuídas por 66 municípios, enquanto outros 151 não possuem nenhuma referência desse tipo. A concentração é especialmente alta nas maiores cidades.

Os dados mostram que essas homenagens constituem um padrão urbano, principalmente em cidades que passaram por forte expansão imobiliária entre os anos 1970 e 1990, período que coincide com os governos militares e o pós-ditadura imediato. 

Criada em 2012, a CNV teve como objetivo investigar graves violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura militar, incluindo tortura, homicídio, desaparecimentos forçados e perseguição política. O relatório final, publicado em 2014, identificou 377 agentes do Estado como responsáveis por esses crimes. 

Para chegar ao resultado, a reportagem extraiu os dados dos logradouros únicos registrados pelo IBGE e os comparou, com auxílio de programação em Python, aos nomes dos militares apontados pela CNV como responsáveis por tortura, assassinatos e violações de direitos humanos. O processo considerou variações ortográficas e nomenclaturas comuns, como “Rua Pres. Castelo Branco” ou “Av. Costa e Silva”, o que garantiu maior precisão na identificação dessas homenagens.

 

Quem são os militares mais homenageados

 

O nome mais recorrente é o do militar Humberto Castelo Branco, primeiro general-presidente, presente em 972 ruas,  quase três vezes mais do que o segundo colocado, Artur da Costa e Silva, com 320.

 

Fonte: Censo IBGE 2022 e Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Para o historiador Roberto Abdala, a escolha dessas homenagens não é neutra. “Quando você nomeia uma rua, uma praça, você está monumentalizando alguém”, afirma. “Então, por que monumentalizar traidores da pátria? Ditadores que governaram o Brasil por 21 anos? É minimamente bizarro. É violentar a memória das pessoas que foram torturadas ali perto, que passam todo dia por esses lugares.” 

Ele lembra que boa parte da população e de gestores públicos não sabem quem foram esses homens, o que contribui para o esquecimento do regime. “Se uma criança perguntar ‘quem foi Castelo Branco’, muitos políticos vão responder ‘presidente do Brasil’. Não dizem que foi ditador. Isso já é uma forma de apagamento.”

 

 

Goiânia e as figuras mais polêmicas

A capital reúne o maior número de ruas relacionadas à ditadura: 226. Entre elas, há homenagens a alguns dos nomes mais controversos do período, como Castelo Branco, Costa e Silva, e Emílio Médici. 

Castelo Branco:

Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura, aparece em centenas de ruas da capital e é o militar mais homenageado do estado. Sua figura é polêmica porque foi ele quem consolidou a base jurídica que sustentaria a repressão nos 21 anos seguintes. Em 1965, instituiu o Ato Institucional nº 2, que extinguiu os partidos políticos existentes e impôs o bipartidarismo artificial entre Arena e MDB, além de ampliar os poderes de cassação e afastamento de parlamentares.

A ampla presença do seu nome no espaço urbano goianiense contrasta com os achados da Comissão Nacional da Verdade, que o identifica como um dos responsáveis por estruturar a engrenagem institucional que viabilizou prisões políticas, censura e perseguições. 

Costa e Silva:

O segundo nome mais frequente em Goiânia é o de Artur da Costa e Silva, presidente que assinou, em 1968, o Ato Institucional nº 5, considerado o instrumento mais violento da ditadura. O AI-5 suspendeu garantias constitucionais, fechou o Congresso, permitiu prisões sem mandado judicial e oficializou a tortura e a censura como práticas de Estado. Ter ruas como “Avenida Costa e Silva” ou “Rua Presidente Costa e Silva” significa, portanto, homenagear diretamente o governante mais associado ao auge da repressão. 

Emílio Médici: 

Outro nome presente nas ruas da capital é o de Emílio Garrastazu Médici, presidente entre 1969 e 1974. Seu governo é lembrado por dois aspectos contraditórios: o chamado “milagre econômico”, marcado por crescimento acelerado e propaganda ufanista, e a fase mais brutal da repressão política, com centenas de desaparecimentos e execuções.

Foi sob seu comando que órgãos como o DOI-Codi e o Cenimar atingiram seu nível máximo de atuação clandestina. A CNV descreve o período Médici como “o mais sistemático e violento” da ditadura

O padrão mostra que quanto maior o município e mais intenso o processo de loteamento nas décadas finais do século XX, maior a probabilidade de haver homenagens ao regime militar.

 

 

Distribuição desigual e resistência às mudanças

 

Em cidades menores, a quantidade é significativamente mais baixa: Ivolândia e Abadia de Goiás, por exemplo, possuem apenas uma rua com nomes da ditadura.  Segundo Roberto Abdala, essa diferença influencia até mesmo a dinâmica de mudança: “Cidades pequenas trocam nomes com mais facilidade. Em cidades maiores, há mais resistência. E muitas vezes as pessoas nem sabem que aquele nome faz referência à ditadura.”

Além da dimensão simbólica, a discussão envolve questões práticas e políticas. Trocar o nome de uma rua exige projeto de lei, votação na Câmara Municipal, sanção do prefeito e, em muitos casos, consulta pública. As mudanças também têm impacto em documentos, endereços comerciais e mapas urbanos. Por isso, grandes cidades tendem a registrar mais resistência.

 

Fonte: Censo IBGE 2022 e Comissão Nacional da Verdade (CNV).
Cenário Goiano

 

O debate sobre homenagens a figuras ligadas à ditadura militar ganhou força em Goiânia nos últimos anos, principalmente pela entrada oficial do tema na Câmara Municipal. Um dos movimentos mais estruturados nesse sentido é o projeto apresentado pela vereadora Aava Santiago (PSDB), que busca impedir que pessoas envolvidas em graves violações de direitos humanos sejam homenageadas no futuro em logradouros públicos da cidade.

A proposição surge em um contexto no qual o levantamento aponta que Goiânia é a cidade que mais homenageia figuras da ditadura em Goiás, concentrando quase 15% de todas as ruas identificadas no estado. Para Aava, a discussão vai além da toponímia e alcança a identidade da própria cidade:

“Quando eu protocolei esse projeto, eu não estava falando apenas de nomes de ruas — eu estava falando sobre que cidade nós queremos ser. Goiânia não pode continuar prestando tributo a figuras que representam dor, violência, autoritarismo e desigualdade.”

A vereadora enfatiza que homenagens públicas são escolhas políticas e pedagógicas. Em um estado onde Costa e Silva, Castelo Branco e Médici batizam avenidas e ruas de bairros inteiros, ela argumenta que manter esses nomes reforça narrativas que violam os valores democráticos contemporâneos. “Memorializar opressores não educa, não honra a história e não projeta futuro. O objetivo é corrigir distorções e garantir que a cidade celebre quem ampliou direitos, não quem os destruiu.”

O projeto já avançou nas instâncias internas da Câmara e já está pronto para ir a plenário em primeira votação. Goiânia já teve tentativas isoladas de mudar nomes de ruas ligadas a figuras da ditadura, mas todas esbarraram em resistência política ou falta de mobilização popular. Aava argumenta que, em 2024–2025, o cenário mudou:

“Hoje existe uma compreensão mais madura de que homenagem pública não é neutra. Este projeto é diferente dos anteriores porque ele está mais completo, mais técnico e mais coerente com discussões nacionais e internacionais.”

O texto apresentado pela vereadora cria critérios objetivos para impedir a nomeação de logradouros com nomes de pessoas envolvidas em crimes contra a humanidade, racismo, trabalho escravo contemporâneo, entre outras violações. Essa ampliação responde ao mesmo movimento que orientou a decisão judicial em São Bernardo do Campo, onde a Justiça ordenou a retirada de nomes como Avenida 31 de Março e Vila Mussolini

Uma informação central para entender a proposta é que ela não prevê mudança automática de nomes já existentes. No contexto goiano, onde a ditadura ainda marca bairros inteiros e onde a disputa pela memória ressurgiu com força após 8 de janeiro de 2023, a iniciativa de Aava Santiago aparece como um esforço institucional para reposicionar Goiânia em relação ao seu passado, e ao estado que pretende ser no futuro.

O que dizem os moradores: entre a indiferença cotidiana e o desconforto quando a memória aparece

 

As entrevistas realizadas durante a reportagem mostram que uma parte da população goiana não reconhece imediatamente que o nome de uma rua homenageia uma figura da ditadura militar. Isso tem relação direta com os dados apresentados no levantamento, os quais indicam que os 1.601 logradouros com nomes de figuras do regime estão tão integrados ao cotidiano que se tornam invisíveis. 

No entanto, quando essa associação é explicitada, surge um desconforto quase imediato. A reação dos moradores oscila entre a percepção tardia, a crítica ao simbolismo e um incômodo mais profundo quando se compreende o peso histórico dessas figuras.

O estudante Dhefy Wotton, 23 anos, representa uma parte da população que convive diariamente com esses nomes mas não associa o significado. Ele admite que, apesar de conhecer a Avenida Castelo Branco, nunca a relacionou ao general-presidente que comandou os anos iniciais da ditadura. “Por estar em nome de rua, a gente não associa tão direto. Só quando estuda mais dá pra perceber.”

Quando pensa sobre o impacto simbólico, Dhefy reconhece que o nome não desperta memória imediata, mas, ao considerar o significado histórico, ele muda de posição e defende a alteração. 

Durante as entrevistas, percebemos um fenômeno recorrente: quanto mais o entrevistado compreende o contexto histórico, maior é a rejeição à permanência desses nomes. A estudante Thaynná Borges, 22 anos, oferece uma leitura mais embasada desde o início. Para ela, a presença de nomes ligados a ditadores é problemática. “É um total desserviço. Nome de rua remete a homenagem, e eu não acho que essas pessoas devam ser homenageadas”, afirma. 

Sua opinião dialoga com o dado de que mais de 60% das homenagens identificadas em Goiás estão associadas aos quatro presidentes-generais mais repressivos do período, incluindo Costa e Silva e Médici. Thaynná também reforça a necessidade de ressignificar o espaço público. “É urgente colocar isso em prática. Por mais simples que pareça ser apenas um nome de rua, isso diz muito sobre nossos valores.”

Já Eduardo Cunha, 23 anos, conta que nunca havia pensado no assunto e que “não acha nada”, mas, ao ser provocado sobre o contexto histórico, sua conclusão muda. “Acho que deveria mudar sim, porque foi um episódio ruim na história brasileira.”

Essa oscilação entre indiferença e desaprovação após a contextualização aparece em outros relatos e reflete o que pesquisadores chamam de “memória latente”: ela não está na superfície, mas ressurge ao menor estímulo. Em falas mais aprofundadas, aparecem sentimentos de dor e injustiça. Maria Eduarda, 23 anos, destaca o impacto emocional sobre vítimas e familiares:

“É uma história que não deveríamos homenagear. As pessoas que foram vítimas vão se sentir obrigadas a relembrar isso.”

A percepção da entrevistada representa debates presentes em políticas públicas de memória, segundo as quais homenagens a perpetradores de violência reforçam traumas e dificultam a construção de uma sociedade que reconheça violações. Entre os entrevistados, o servidor público Rodolpho Sousa reconhece o apagamento simbólico. “As pessoas nem lembram quem essas figuras são.” Mas também aponta o caráter violento dessas homenagens:

“Quando você homenageia uma figura ditadora, está homenageando aquele período histórico violento. Ficar revisitando essas pessoas é uma forma difícil de seguir com a vida.”

Ele também afirma que a responsabilidade pela mudança deve vir do Estado. Posição compatível com legislações de memória adotadas em países como Alemanha, Argentina e Chile. “Primeiro deveria partir do governo, em respeito às vítimas e às famílias.”

A entrevista mais direta e emotiva vem de Valda, 61 anos, pertencente a uma geração que cresceu sob o impacto da repressão. “Sou totalmente contra. Deve ser mudado, porque foi uma época difícil de tortura.” Sua fala traz o testemunho de quem experimentou o medo e a violência de forma concreta.

A partir das entrevistas, entende-se que as homenagens a militares da ditadura tornaram-se invisíveis a ponto de passarem despercebidas pela maioria, mas, quando reconhecidas, são rejeitadas. A indiferença não é aprovação, ela demonstra desconhecimento. E, uma vez informado sobre quem realmente são os personagens que batizam ruas e avenidas, o morador tende a rejeitar a homenagem e reconhecer a necessidade de revisão.

 

O 8 de janeiro reacendeu o debate?

 

Para o historiador Abdala, os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 — quando os prédios dos Três Poderes foram invadidos e depredados reacenderam o debate sobre memória, autoritarismo e símbolos públicos ligados ao passado militar. Os ataques, protagonizados por grupos que reivindicam a volta da intervenção militar, evidenciaram que a disputa pela memória da ditadura permanece ativa. Para Abdala, isso contribuiu para que o tema voltasse ao centro das discussões. Além desse episódio, outros fatores influenciaram a retomada do debate: 
  • o avanço de discursos revisionistas nas redes sociais;
  • a presença de militares na política contemporânea;
  • o fortalecimento de movimentos de memória e direitos humanos a criação de projetos de lei sobre renomeações.

 

Como exemplo deste último tópico, no dia 28 de  novembro de 2025, a Justiça de São Paulo determinou que a prefeitura de São Bernardo do Campo renomeasse três vias que homenageavam diretamente o golpe de 1964 e o fascismo italiano: Avenida 31 de Março, Avenida Humberto de Alencar Castelo Branco e a Vila Mussolini.

A decisão foi resultado de uma ação popular movida por um membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB, que argumentou que homenagear ditadores e regimes autoritários viola princípios constitucionais como dignidade humana, pluralismo político e o direito à memória. A sentença afirma que manter homenagens a figuras que cometeram violações graves de direitos humanos é incompatível com uma sociedade democrática. 

As decisões judiciais, projetos de lei e pressão internacional por políticas de memória, indica que o Brasil está vivendo um momento em que os nomes das ruas deixaram de ser meros endereços. Eles se transformaram em instrumentos de disputa política e histórica.

O caso de São Bernardo mostra o que especialistas afirmam há décadas: que o espaço urbano não é neutro. Ele conta uma história e, quando essa história homenageia perpetradores da violência de Estado, o conflito se torna inevitável.

 

Limitações da análise

 

Foram contabilizadas apenas as homenagens explícitas aos militares listados pela CNV. Termos genéricos como “General”, “Marechal”, nomes de quartéis, batalhões ou referências indiretas ao golpe não entraram na conta, o que significa que o número total de referências ao regime possivelmente é maior.

A análise das homenagens mostra que a maior parte das cidades goianas possui pelo menos uma referência à ditadura em suas ruas. A permanência desses nomes é burocrática, simbólica e política. Mesmo 40 anos após o fim do regime, a memória da ditadura ainda está estampada nas placas de rua, e passa despercebida pela maioria das pessoas que circulam por elas diariamente.

Categorias: Jornalismo de Dados Ditadura Goiânia