Peças em crochê feitas por Tatiane Costa. Foto: Divulgação.

O AVESSO DO PONTO: A FORÇA DO CROCHÊ NA ECONOMIA CRIATIVA EM GOIÁS

De biquínis para a copa a vestidos de noiva, um setor que vem ganhando espaço na economia do Brasil

Por Bianca Moreira.

 

A cada quatro anos, a Copa do Mundo colore as ruas, as vitrines e as redes sociais de verde e amarelo. Mas, para algumas das milhares de pessoas que acompanham o evento, essas cores chegam de formas diferentes: elas ganham vida pelas mãos de artesãs que, linha por linha, fazem peças temáticas com o objetivo de impulsionar seus próprios negócios.

 

A história de Tatiane Costa começa aos 8 anos, quando aprendeu a fazer crochê com sua avó. Com a dificuldade por ser canhota, nunca a fez imaginar que no futuro, produziria não só tapetes e panos de prato, mas vestidos de noivas e biquínis temáticos. Dessa forma, a artesã faz parte de 26.259 profissionais criativos empregados em Goiás, segundo o Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil, dado lançado em 2025.

 

Voar Alto

 

A trajetória de Tatiane começou há nove anos, quando se mudou para Goiânia e começou a trabalhar como secretária de uma médica pediatra. Mas foi a aposentadoria da médica o empurrão que faltava para que ela transformasse o hobby de infância em sua única fonte de renda. 

 

E assim nasceu o seu pequeno negócio, confeccionando peça atrás de peça, tomando o devido cuidado para não lotar a agenda da semana e varando madrugadas para conseguir terminar um único vestido em 20 dias. Longe dos horários fixos do antigo emprego de carteira assinada,Tatiane agora dita o ritmo dos seus dias. Essa autonomia permite que ela concilie a alta produção com a rotina da família, criando memórias que antes não lhe permitia .

 

“Todo mundo me apoia muito e gosta. Acha bonito, tenho muito apoio deles. Meu esposo compra linha, entrega pra mim, ele até desenha umas coisas pra me dar ideia”, diz com o sorriso no rosto. Com esse apoio e o talento da artesã, hoje ela exporta suas peças para países como Estados Unidos, Argentina e Colômbia. São peças que levam as cores e a identidade brasileira para fora do país, aproveitando ganchos como a Copa do Mundo para furar a bolha do mercado e conquistar o mundo.

 

Essa autonomia trouxe à Tatiane um ganho que, nas palavras dela, “não tem preço”: o tempo. Se antes o trabalho como secretária exigia uma jornada das sete da manhã às sete da noite, hoje ela é dona de seu próprio tempo. 

 

A flexibilidade da rotina permite que ela priorize o que realmente importa, fazendo pausas durante a produção para curtir sua família, criando memórias que antes a carteira assinada não permitia. 

 

“Agora eu já tenho tempo de ser vovó”, celebra ao mencionar seu neto de 2 anos. Para ela, o empreendedorismo criativo foi o fio que uniu a realização profissional ao afeto familiar.

 

Quando questionada sobre o sentido de ter o próprio negócio, ela enfatiza que empreender significa “voar alto”. Para ela, o segredo para não ficar na “mesmice” do mercado é a constante inovação, como a troca de tapetes tradicionais pelo uso de fios de seda e elastano, que transformam biquínis em peças de luxo.

 

Peças em crochê feitas por Tatiane Costa. Foto: Divulgação.

Peças em crochê feitas por Tatiane Costa. Foto: Divulgação.

 

O Fio da Economia

 

Se para a artesã empreender é “voar alto”, para a economia do estado de Goiás esse voo tem o destino de consolidar um setor que gera riqueza por meio da criatividade e do saber.

 

Embora a Indústria Criativa no país responda por 1,6% do PIB (Produto Interno Bruto) total de Goiás, os números mostram uma aptidão regional que cresce acima da média nacional quando o assunto é o fazer artístico.

 

O diferencial goiano mora exatamente na área em que Tatiane Costa atua. Enquanto no Brasil a cultura responde por 6,5% dos empregos criativos, em Goiás esse índice salta para 9,3%, demonstrando uma vasta gama de talentos dedicados às artes e expressões culturais. Segmento esse que abrange o artesanato e registrou o maior crescimento da economia criativa do país, com uma alta de 12,8% nos vínculos de trabalho.

 

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Comparativo de Indicadores Estruturais. Fonte: Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil.

 

Esse avanço é devido à recente busca por peças artesanais, que trazem a sensação de algo exclusivo, único e com significado. Os responsáveis por essa nova tendência são as gerações mais novas, que visam um consumo mais consciente, priorizando o meio ambiente e a sustentabilidade, fatores em que peças artesanais se destacam.

 

“Está muito em alta o crochê. A peça bordada, por exemplo, tá em alta demais. Todo mundo quer. Você vai a uma praia e vê uma peça de crochê, todo mundo fica olhando e pergunta”, Tatiane explica sobre a valorização do seu trabalho no momento atual.

 

Contudo, a real importância dessa economia enfrenta um desafio estatístico, pois os dados oficiais não focam nos trabalhos autônomos, que, assim como Tatiane, movimentam o mercado em suas casas.

 

Mas, ao unir o talento herdado da avó e novas ideias, o crochê revela ser uma rede de afeto e autonomia, garantindo que a economia criativa em Goiás seja, acima de tudo, um caminho de empoderamento feminino.

Categorias: Jornalismo de Dados Economia criativa Empreendedorismo