Cão do Abrigo3

Refugados: uma casa de amor e luta por animais em vulnerabilidade

Por: Renato Cândido

Fotografia de um cachorro no abrigo

Cão do Abrigo dos Animais Refugados. Foto: Renato Cândido

 

      Se o Refugados se caracterizasse como uma pessoa, ele seria alguém que possui uma garra quase inabalável, que sempre resiste, anda com o corpo cansado, mas segue adiante. Seria aquela pessoa em quem a grande maioria não enxerga um propósito, e apesar de dizerem que ela deveria desistir, nunca se dá por vencida. Em meio a improvisos e dores, há uma enorme coleção de histórias de vários animais já resgatados e muito amor para dar. Seria aquela pessoa que seguiria em frente na busca por uma realidade menos cruel. Se fosse uma pessoa, com toda certeza não carregaria um cheiro convencional! Certamente, o aroma seria composto por desinfetante, ração molhada, um xixizinho e as caminhas sujas depois de muita agitação. 

 

      Mas ele não é gente! É uma casa adaptada e readaptada para receber e transformar a realidade de muitos animais que já passaram por várias barras enquanto estavam nas ruas. Esse espaço é composto por quartos, baias, portões e um quintal de cimento já marcado pelo tráfego de várias patinhas inquietas. Nascido do gesto de uma mulher com solidariedade à causa animal, é até hoje sustentado pelas mãos de voluntários.

 

      A história do abrigo começou com Lívia Denise, uma mulher que era capaz de enxergar um ser pedindo ajuda onde a maioria das pessoas só via mais um animal largado pela cidade. Em cerca de 25 anos, ela foi transformando o espaço em um abrigo em expansão. Cada cômodo passou a ter uma função específica: um quarto virou enfermaria, outro virou estoque, outro virou canil. E assim, o lugar foi virando o Refugados. 

 

      A perspectiva de que não se tratava de uma residência comum foi se espalhando entre as pessoas. A partir disso, foi-se reunindo uma rede de voluntários e pessoas solidárias no geral. Mas, junto disso, apareceram massivamente os pedidos de socorro, de formas até insustentáveis para as acomodações do abrigo. Nesse cenário, vieram também os desafios: manter de pé um espaço assim não é fácil, muito menos gratuito. A boa intenção de um grupo de pessoas não era capaz de sustentar financeiramente o abrigo. É preciso ração, limpeza pesada e constante, vacinas, castração, transporte, veterinário. São demandas caras, que o abrigo só consegue financiar por meio de doações. 

 

      — As pessoas, muitas vezes, esperam de nós, das ONGs… a gente sofre muita pressão com isso. Surgem muitos casos e o pessoal já fala “manda pra ONG”, “chama alguma ONG para buscar”. Mas se for parar pra pensar, cada um pode fazer um pouquinho também. Colocar um potinho de ração na porta, um potinho de água… já muda a realidade de um animal.

 

 

      Cada centímetro do abrigo é fruto do esforço de quem conseguiu visualizar um futuro onde não tinha nada. Cada muro levantado no terreno, para a ampliação dos espaços de acolhimento, foi fruto de muito trabalho duro da equipe e do processo de doação realizado por pessoas solidárias. 

Gatos do abrigo

Gatos do Abrigo dos Animais Refugados. Foto: Renato Cândido

 

      Quando não há mais onde acomodar um novo animal resgatado, o Refugados precisa ultrapassar seus próprios muros. E é dessa necessidade que entram os lares temporários, casas de pessoas dispostas a ceder um pouquinho do seu espaço e do seu tempo para ajudar um animal em recuperação ou em espera por adoção. Quando alguém aceita receber um animalzinho, o abrigo se disponibiliza a custear todas as despesas: alimentação, transporte, consultas e medicamentos. O que se pede aos lares é apenas um pouquinho de tempo, cuidado e um cantinho seguro. Esse movimento de abrigar, também fora do abrigo, tem contribuído para o Refugados continuar resgatando vidas:

 

      — O lar temporário muitas vezes salva vidas. Porque às vezes a gente não tem mais espaço aqui no abrigo, não tem baia apta para receber o animal. E aí, quando aparece alguém disposto a ajudar, a gente consegue fazer o resgate, consegue fornecer cuidado, salvar a vida.

 

      Quando a Lívia faleceu, em 2021, vítima da pandemia, o abrigo esteve em uma situação de incertezas. Muitos dos voluntários, sem verem uma luz no fim do túnel, acabaram cogitando encerrar as atividades, por meio de uma campanha final para a adoção massiva dos animais ali presentes. Mas alguma coisa não os deixou encerrar. A paixão por ajudar os animais e a resistência daquele espaço construído com muita luta não deixaram que ali fosse o fim.

 

      — Se a Lívia pudesse dizer alguma coisa hoje, seria pra gente continuar, pra gente seguir em frente com o legado dela. 

 

      O abrigo dos animais Refugados segue de pé, sustentado por duas funcionárias fixas, uma rede de voluntários e um sistema inteiro que se baseia nas doações e generosidades dos colaboradores. Existem pessoas que apadrinham um animalzinho em específico e apoiam os custos da forma que for possível. Tem quem doe um saco de ração por mês, tem quem pague consulta ou que compartilhe um único post nas redes sociais – todas essas coisas ajudam e são muito significativas para trabalhos como o do Refugados. 

 

      Os dias no abrigo começam cedo: quando range o portão, já tem muitos latidos e miados à espera. A limpeza é pesada, rápida e constante, mas também tem a alimentação, os remédios e demais cuidados, tudo isso demanda muito tempo e energia. As funcionárias passam constantemente em cada baia para conferir se está tudo bem, quem não comeu, quem está triste. Os que precisam vão direto para a clínica e os demais são levados para passear um pouco. No fim do dia, o desejo é que a noite seja tranquila, sem nenhum acidente, uma vez que é insustentável para o abrigo a permanência de algum funcionário no período noturno. 

 

      — A gente termina o dia com uma oração. Um pedido para que Deus os proteja durante a noite. Que ninguém brigue, que nenhum adoeça, que nenhum se machuque. E que, no dia seguinte, todo mundo esteja bem aqui. 

 

      Mesmo com a rotina caótica, há espaço para o afeto. Cada funcionário já reconhece os latidos mais insistentes, os que choram por atenção e os que se agitam só de ouvir passos. Há quem só coma se a tia estiver perto, quem exija colo depois do passeio, quem se aninhe em qualquer canto que tenha um paninho limpo. Às vezes, o trabalho se estende para além da força física; é necessário ter atenção e paciência para notar até os mínimos sinais. Um focinho mais seco, um olhar cabisbaixo, um tremor no corpo: tudo pode indicar algo mais sério. 

 

      — Com certeza os animais percebem que foram resgatados. Às vezes no começo eles têm medo, ficam ariscos, mas é só dar um pouquinho de cuidado, de carinho, que você vê no olhar deles… é um olhar de gratidão que não dá nem pra explicar. Eles são muito carentes, muito amorosos, e a gente sente isso todos os dias ali.

 

      O luto também acaba sendo constante dentro das paredes do abrigo. Alguns animais morrem por idade, outros não resistem a traumas do passado ou até mesmo são encontrados em situações extremas. Já teve um cão que morreu horas depois do resgate, mas, pelo menos, morreu com dignidade, em um espaço de acolhimento. Também tem os que esperaram muitos anos por uma família que nunca veio, e os que ainda esperam. Independentemente do cenário, esses animaizinhos deixam muitas saudades quando partem. Cada um deles foi e é responsável pela composição e pela história do Abrigo dos Animais Refugados.

 

      Alguns dos animais que já viveram ou vivem ali, nem se preocupam quando um portão se abre, para eles é só mais um dia rotineiro. Para esses, dificilmente o dia de sorte chegará. Isso porque são cães e gatos adultos, de porte médio ou grande, de pelagem preta ou raça indefinida, os que quase ninguém escolhe. A preferência por filhotes faz com que muitos envelheçam dentro das baias, que aos poucos deixam de ser passagem e vão se tornando morada fixa. Para esses, não tem problema! O abrigo dos animais Refugados nunca procurou por determinadas características antes de aceitar um animal. O público geral pode não escolhê-los, mas, no abrigo, sempre será possível visualizar um lar seguro, diferente das ruas. 

 

      — Sem distinção, todas as vidas importam. 

 

      O abrigo já foi lar de histórias improváveis, como a de Bob Dylan, que perdeu o focinho para um tumor, sobreviveu a duas cirurgias e segue abanando o rabinho como se a vida fosse bela e inabalável, ao contrário do que vários pensaram quando, ao ver o caso, indicaram que ele deveria ser sacrificado. Ou a Kika, que foi adotada, fugiu e misteriosamente voltou para o abrigo através de uma grade minúscula, como quem diz: Ainda não era a minha hora, quero ficar aqui; Do Malboro, que foi atacado por outro cão e por um ouriço, e mesmo assim encontrou um lar e um irmão. Também tem o Amarelinho, que chegou “em pele e osso”, vítima de maus-tratos, e hoje corre feliz pelo quintal do Refugados. 

 

      — A gente costuma dizer que você não pode mudar o mundo, mas pode mudar o mundo de um animal. E isso já faz toda a diferença.

 

      No fundo, o abrigo é isso: um lugar que não desiste. Nem das vidas que chegam, nem da memória das que já não estão mais aqui. O sonho maior é de uma sede própria, com verde e muito espaço para esses animais. A luta é para que a causa animal seja priorizada pela sociedade em geral, mais especificamente pelos órgãos públicos. Mas, enquanto isso não vem, o Refugados segue sendo o que sempre foi, uma casa simples e de muito acolhimento, onde é possível, em qualquer horário do dia, se deparar com muitos latidos e miados, e também com muito amor envolvido no processo. 


Cães do Abrigo

Cães do Abrigo dos Animais Refugados. Foto: Renato Cândido

 

 

      — Amar os animais é um privilégio de poucos, mas respeitar é um dever de todos.

 

Entrevista com Rayane Araújo, voluntária do Abrigo dos Animais Refugados.

Categorias: NOTÍCIA Notícias perfil